TRAVESSEIRO SUSPENSO POR FIOS DE NYLON

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domingo, 25 de setembro de 2011

José Saramago

Anti-heroi para parte do senso comum e para a grande parte da mediocridade política
http://www.josesaramago.org

José Saramago morreu no dia 18 de Junho de 2010. Nobel da literatura, génio das palavras, mestre do texto. Controverso, comunista, ateu. Um tributo à pessoa que marcou a história da literatura universal, que faz periclitar as bases da História e do senso comum, e que deu um novo sentido ao mundo e ao ser humano. Uma história de vida e uma obra imperdível, uma “viagem de elefante”.
jose saramago
José Saramago morreu no dia 18 de Junho de 2010. Não sabemos se teve ou não um encontro com Deus, no céu, no inferno, ou no “desqualificado purgatório”, mas podemos ter a certeza que ambos precisavam de ajustar contas. Ateu convicto, José Saramago tem Deus como um dos temas-fetiche das suas obras. Era com Ele que gostava de conversar, era sobre as suas representações terrestres que dissertava com uma brilhante clareza interpretativa, muitas vezes recheada de causticidade, atraindo polémicas e excomunhões de muitos lados.
Saramago encontra-se agora, porventura, num, seu e claro, vazio inconsciente. Um vazio que se preenche, como acontece sempre com alguém literariamente famoso que perece, num crescendo de interesse limitado no tempo, como também sempre acontece com o interesse súbito pela obra do perecido que renasce no consciente colectivo, com as vontades de evasão do presente e da realidade quotidiana dos cultos e incautos mortais, com a leitura das suas obras. Agora encontra-se na escuridão da sua própria ausência, presente aos latejantes de vida na significância com que estruturou as letras, as mesmas peças com que jogamos o jogo da vida em verbo, sem, no entanto e inevitavelmente, a perícia da exposição do capital intelectual e a arte da construção literária saramaguiana, ou, talvez, o encontremos um dia a conversar com Blimunda Sete-Luas, num metafísico “Memorial do Convento” (1982), esta agora hiperciente da azáfama e dos interstícios da vida, e d’ “As Intermitências da Morte” (2005).
Apenas vagamente, conhecemos nós Saramago nos seus tempos de juventude. Sobeja um hiato temporal entre a primeira publicação do jovem escritor, bem depois das noites de sono partilhadas na cama com os avós Jerónimo e Josefa e os porcos, numa Azinhaga Ribatejana dos tempos da meia sardinha onde as pessoas eram constantemente “atiradas ao chão” por forças opressoras e esmagadoras, essa Azinhaga que o petrificou em estátua num banco de jardim, e a profícua e epopeica revolução literária, 30 anos depois.
jose saramago
Saramago não foi um académico e não ganhou prémios literários aquando da sua juventude. Saramago não foi sequer unanimemente querido, consensual, ou, como por vezes acontece nas esferas culturais e espectaculares, adulado. Terá inclusive dividido a população portuguesa, este anti-herói para parte do senso comum e para a grande parte da mediocridade política. Saramago não competiu o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, porque não o deixaram. Os cordéis da manipulação literária e os senhores das marionetas políticas e religiosas não o permitiram. A humanização do mito de Jesus Cristo, n’ “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), foi a desculpa para tentar olvidar o homem que pôs Portugal (no mapa) e Espanha, o iberismo saramaguiano, a navegar pelo oceano, na sua “Jangada de Pedra” (1986). Países à deriva na unificação atracada de uma Europa cada vez mais distante e, paradoxalmente, maior. Portugal é um estado laico. A separação dos poderes entre a igreja e o estado estão, há muito, constitucionalmente definidos e aprovados. A dissecação de Jesus Cristo, o desdobramento do mito, do homem-deus em homem-(demasiado)humano, colocou no parlamento uma inflamada discussão sobre se seria este Saramago um homem suficientemente português para representar uma nação tão histórica e histericamente conectada a um deus (pátria, família) que este homem, português de nascença é certo, não acreditava. Talvez não suficientemente português mas suficientemente reconhecido mundialmente, Saramago arrecadou o Nobel da Literatura em 1998 e, justiça divina, o Prémio Camões em 1995. Não se refugiou no país que não aceitava as suas ideias, vá, os seus romances misto fusional de uma realidade tépida e uma ficção transpirada, como se se tapassem as lacunas de realidades incertas com o vómito de tempos deploráveis. Não se refugiou sequer, nem o degredo psicológico parece ser um motivo. Não hoje. Saramago escolheu na sua ibéria o recanto de memória mais distante dos homens que o rejeitaram, perto daqueles que são “as maiores vítimas do capitalismo ocidental”. O destino foi Lanzarote, a poucos quilómetros da costa africana. Ilha perdida das Canárias, Espanha, inóspita. Um acaso desidratado, um pedaço de terra negra onde escolheu viver e amar. Temos a certeza que se a ibéria se desprendesse do resto da Europa, Lanzarote ficaria no sítio, a ver passar ao largo a sua assustadora alucinação tectónica. Em Lanzarote nasceu uma epidemia contagiosa que colapsa a sociedade, uma cegueira espontânea que viria a revelar o que de mais extremo veste o ser humano – da animalidade à racionalidade, da violação ao amor. Ainda assim, esta penosa experiência para o autor e para o leitor, o “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), é uma “longa tortura” que mostra que nós, humanos, “não somos bons”. Dos mesmos olhos que viveram a visão da escuridão mundial vieram as lágrimas, durante a apresentação da adaptação deste ensaio ao cinema, ao lado do director brasileiro Fernando Meirelles.

"ENSAIO  SOBRE A CEGUEIRA"  - RESUMO FILME

De Saramago podemo-nos essencialmente deleitar com cerca de 30 anos de obra, de uma literatura “anti-gramatical”, ou seja, que reduz grande parte da portugalidade, a sua enorme língua e as suas orgulhosas regras gramaticais, a um estilo novo e único, um estilo que transforma o hermético das convenções, da pontuação e dos parágrafos, do senso do tamanho frásico, numa literatura encadeada, numa leitura do pensamento, numa leitura que se lê sem se conseguir parar. Pelo menos até Saramago querer. Desmistifica o mergulho profundo e embrenhado no romance, alertando e antecipando os pensamentos e as dúvidas do leitor, tornando a relação entre ambos mais verdadeira, porém mais dominada. Incorrecta ou elitista, dizem alguns, eis uma forma de desconstruir centenas de anos de convenções e acordos em algumas dezenas de anos de romances, poemas e peças teatrais, contos e crónicas, viagens, diários e memórias e “A Maior Flor do Mundo” (2001), o único título infantil. É a língua algo em constante mutação, não é assim, querido acordo ortográfico? Deve então ser a escrita de Saramago um corte, um raio, uma faísca de mudança nessa transformação, nessa mutação.
Saramago foi, é e será tão importante para a literatura portuguesa e mundial como o foram Fernando Pessoa ou Carlos Drummond de Andrade. Eis o homem que quando fala não mede o comprimento do sentido das palavras, em oposição à medida do comprimento interpretativo da sua escrita. Um homem que “quando se enfurece é simpático”, um autoproclamado “pessimista pela razão, optimista pela vontade”. Saramago diz o que pensa e o pensamento dele ecoa em palavras não polidas, despidas, em construções sólidas da sua verdade. Sem medo. Assume-se como comunista, ponto. Não ortodoxo, ponto. A tudo isto se chama, supomos, liberdade de expressão. Liberdade essa que por entre tantos anos de luta parece ainda periclitar nas certezas de alguns eruditos.

O funeral reuniu muitos simpatizantes, amigos, amantes da sua literatura, curiosos e a natural nata politizada. Notou-se, no entanto, e de alguma forma despreocupadamente (pela irrelevância no caso), a ausência daquele que na altura em que um evangelho incendiou um parlamento era o primeiro-ministro, o actual Presidente da República Portuguesa, o Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva. Politicamente correcto, como sempre e como tem que ser, não se coibiu, com uma expressão entediada e simuladamente entristecida, de ler um comunicado escrito por um seu qualquer assessor. Um escrito banal daquele a quem Saramago chamou “o mestre da banalidade”. Acredito que sentisse uma perda para o país, mas não muito.
José Saramago morreu no dia 18 de Junho de 2010. Saramago não pertence ao céu, para onde voou o fumo da combustão do seu corpo, mas sim à terra, local onde agora repousam as suas cinzas. Se de perto tocar Saramago as estrelas será sentado na “sua” passarola, onde a bordo conta a Blimunda Sete-Luas e a Baltazar Sete-Sóis “O Conto da Ilha Desconhecida” (1997). Foram “Os Poemas Possíveis” (1966) que nos deixou, e todas as letras encadeadas, “Deste Mundo e do Outro” (1971).

Leia mais: 

publicado em artes e ideias por miguel oliveira 
http://obviousmag.org/archives/2010/07/jose_saramago_memorial_de_um_genio.html

UMA ANIMAÇÃO DE "A FLOR MAIS GRANDE DO MUNDO" 
 LIVRO INFANTIL DE SARAMAGO



FRASES   DE   JOSÉ   SARAMAGO






POEMA  "BELEZA INVISÍVEL"
Feito o arado que rasga a terra, a passagem do tempo deixa sulcos na alma e no rosto.
“As viagens sucedem-se e acumulam-se como as gerações; Entre o neto que foste e o avô que serás, que pai terás sido?” 
A única coisa que nós temos de fato é a vida. E com ela podemos fazer tudo, ou nada.
Pais, filhos e netos.
Buscar uma experiência de significação, trilhar a senda do auto-aperfeiçoamento.
A vida é um instante, um sopro.
Quantas gerações já vieram e se foram,
quantas ainda virão e igualmente passarão…
Há quem sustente que é o amor das mães que mantém o mundo em seu eixo.
Memórias poéticas e afetivas.
Os pequenos gestos e instantes que se vestem de beleza e ternura o tempo.
O ato de observar é a única chave que abre a porta dos mistérios.
A paisagem de fora, a vemos com os olhos de dentro.
A paisagem é um estado de alma.
Na realidade, o que vemos está em nós.
Não vemos o que vemos, vemos o que somos…
“Se podes olhar, vê.
Se podes ver, repara.”
Cultivar a quietude do espírito
como potência de transformação.
Ter um olhar capaz de discernir a beleza invisível.
A filosofia oriental nos ensina que
a mais bela imagem não tem forma.
Resgatar a beleza, a poesia e a espiritualidade
capazes de suavizar a nostalgia do Absoluto.

Cativar a via do Silêncio
dentro de nós.
Esta existência terrena é uma
oportunidade de despertarmos
da letargia e do sono.
Esta existência terrena
é a infância da Eternidade.
Uma oportunidade para nos
aproximarmos da Pura Luz
que habita nossa finitude.
Felizes os que aproveitam
com sabedoria a preciosa
aventura que é o existir.
Feliz o olhar capaz
de discernir a beleza
do invisível...

José Saramago



(texto de JOSÉ SARAMAGO)


" Que Humanidade é Esta?"

Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta? Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos.

Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito. Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.”

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Trabalhar cansa...




18/05/2011
Longa brasileiro aborda as influências das relações de trabalho no convívio familiar
O filme “Trabalhar Cansa” foi exibido no Festival de Cannes deste ano. Em entrevista, os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra contam que o objetivo da película é mostrar “como as relações de trabalho afetam todas as outras relações pessoais e familiares”
Por Paula Salati
“Trabalhar Cansa” é o título do único longa-metragem brasileiro selecionado para o Festival de Cannes deste ano, que está em sua 64ª edição. Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, o filme já teve exibição no evento que iniciou dia 11 de maio e segue até o dia 22, quando haverá as premiações.

Os diretores Juliana e Marco sempre trabalharam com temas relacionados ao universo familiar. Juliana conta que, desde o início, a idéia era abordar a forma “como as relações de trabalho afetam todas as outras relações pessoais e familiares” e “o tipo de competição e dificuldade enfrentada por quem trabalha nas metrópoles”.

O filme, vivenciado na cidade de São Paulo, conta a história da dona-de-casa Helena (interpretada pela atriz Helena Albergaria do grupo teatral Companhia do Latão) que resolve realizar um antigo sonho de ter seu próprio negócio, abrindo um mini-mercado. Para isso, ela contrata a empregada Paula para tomar conta de sua filha, Vanessa, de oito anos. Ao mesmo tempo, seu marido Otávio perde o emprego de gerente em uma grande corporação na qual trabalhou por quase 10 anos.

De dona-de-casa, Helena se transforma em patroa. Otávio, que sempre esteve acostumado a ser chefe de família, passa a depender financeiramente da esposa. A partir daí, a família desenvolve uma série de conflitos por conta das inversões nas relações de trabalho e pessoais, sob um pano de fundo de suspense e horror.

O clima de horror também é um estilo dos autores: “Quando começamos a fazer nossos curtas, pensávamos em fazer filmes de horror. Aos poucos fomos vendo que muita gente não via nossos filmes como filmes de horror porque eles não usavam todos os recursos do gênero, todas as convenções. Nos nossos filmes, nós tentamos entender o que a história tem de assustadora em si mesma e explorar esse aspecto - e não apenas aplicar no filme as convenções do gênero. O resultado acaba sendo um gênero híbrido, difícil de identificar plenamente”, explica Juliana.

O título “Trabalhar Cansa” vem do poema Lavorare Stanca, de Cesare Pavese, que não estabelece uma relação direta com o filme, mas cujo tom melancólico se aproxima da história. Juliana e Marco são produtores também dos curtas As Sombras, O Lençol Branco e Um Ramo, sendo que esses dois últimos também foram exibidos no Festival de Cannes.

Os diretores brasileiros tem mais projetos pela frente, um deles se chama “Cidade;Campo”, filme que contará duas histórias paralelas que se passam no ambiente urbano e rural.

Em Cannes, o filme foi eleito para competir aos prêmios da mostra Um Certo Olhar (Un Certain Regard) e também pelo Caméra d’Or, reservado aos diretores estreantes em longa. O resultado deve sair ao final do festival, no dia 22.

LEIA TAMBÉM:
CONFIRA O TRAILER DE TRABALHAR CANSA:
 
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TRABALHAR CANSA
CLASSIFICAÇÃO: Para PensarDramaBrasil - 30/09/2011
DIREÇÃO e ROTEIRO: Marco Dutra e Juliana Rojas
ELENCO: Helena Albergaria, Marat Decartes, Naloana Lima, Gilda Nomacce, Marina Flores, Lilian Blanc
Brasil, 2011 (99 min)
Será que Helena faz o papel dela mesma? Fiquei com a impressão que sim, não só por causa do mesmo nome, mas pela simplicidade do personagem enquanto representação da classe média. Helena (Helena Albergaria na vida real) faz o papel dessa dona de casa que se cansa, não só do trabalho que dá o novo mercadinho, mas da empreitada da vida.
Trabalhar Cansa é interessante por isso – junta elementos reais e surreais para tratar da dura luta do dia-a-dia. Os reais são representados pela família de Helena. Na pele de uma dona de casa, a gente percebe o seu envolvimento com nova ideia de ajudar nas despesas da casa abrindo um pequeno mercado, seu entusiasmo com o novo ritmo de vida, a dura realidade de ter de lidar com os funcionários, de ter de abrir mão do tempo com a família, de não ter retorno financeiro, até cair na exaustão total e completa. Dentro desse panorama, que vai crescendo no descontrole e na ansiedade, seu marido Otávio (Marat Decartes) perde o emprego. Mais uma dificuldade para lidar com a frustração, o nervosismo, a falta de dinheiro e principalmente a falta de perspectiva num mercado de trabalho cruel e implacável para quem já tem mais de 40 anos e precisa se recolocar.
Já os elementos surreais são introduzidos no decorrer da narrativa, apontando a falta de controle que temos das coisas práticas e a impossibilidade de compreender tudo. Alguns mistérios cercam a vida de Helena e o trabalho de tocar a vida em frente vai sugando todas as energias. Algumas metáforas são bem colocadas, principalmente quando sair do eixo emocional significa colocar a sanidade, a estabilidade, a razão a perder.
Para completar esse quadro os diretores Marco Dutra e Juliana Rojas inserem a figura da empregada doméstica, numa crítica ao comportamento da classe média, às mazelas do emprego informal e à desigualdade social. Trabalhar esse dinâmica também cansa do lado de cá da tela e me pareceu que era essa a intenção dos diretores. Talvez tenha sido esse o argumento para selecionar o filme para ser exibido na categoria Um Certo Olhar, em Cannes, este ano. Trabalhar Cansatem um outro olhar a partir de uma tema conhecido nosso de cada dia. Mesmo que esse olhar seja o do estranhamento diante do cheiro ruim, do esgoto transbordando, das paredes úmidas, dos latidos dos cachorros. Um olhar cansado… Mas alguém por acaso disse que seria fácil?


quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas



1985 - St. Elmos Fire filme Soundtrack.






Este filme gira em torno de um grupo de amigos que acaba de se formar na Universidade e que, a partir daí busca adaptar suas vidas (pós-universitária) as responsabilidades da vida "adulta"