"AMA E FAZ O QUE QUISERES. SE CALARES, CALARÁS COM AMOR; SE GRITARES, GRITARÁS COM AMOR; SE CORRIGIRES, CORRIGIRÁS COM AMOR; SE PERDOARES, PERDOARÁS COM AMOR. SE TIVERES O AMOR ENRAIZADO EM TI, NENHUMA COISA SENÃO O AMOR SERÃO OS TEUS FRUTOS."
Santo Agostinho
E
a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia
Eu
agora sei, eu sou só
Eu
e minha liberdade que não sei usar
Mas,
eu assumo a minha solidão
Sou
só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa
Guardo
teu nome em segredo
Preciso
de segredos para viver
E
eis que depois de uma tarde de quem sou eu
E
de acordar a uma hora da madrugada em desespero
Eis
que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei
Fui
ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação
Simplesmente
eu sou eu, e você é você
É
lindo, é vasto, vai durar
Eu
não sei muito bem o que vou fazer em seguida
Mas,
por enquanto, olha pra mim e me ama
Não,
tu olhas pra ti e te amas
É
o que está certo
Eu
sou antes, eu sou quase, eu sou nunca
E
tudo isso ganhei ao deixar de te amar
Escuta!
Eu te deixo ser… Deixa-me ser!
Separação
Affonso Romano de Sant´Anna
Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.
Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.
Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!
Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.
Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.
No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.
Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?
No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.
O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.
Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?
Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.
DEPOIS
Marisa Monte
Faixa 03 do Novo CD da Marisa Monte: O Que Você Quer Saber de Verdade.
Depois de sonhar tantos anos, De fazer tantos planos De um futuro pra nós Depois de tantos desenganos, Nós nos abandonamos como tantos casais Quero que você seja feliz Hei de ser feliz também
Depois de varar madrugada Esperando por nada De arrastar-me no chão Em vão Tu viraste-me as costas Não me deu as respostas Que eu preciso escutar Quero que você seja melhor Hei de ser melhor também
Nós dois Já tivemos momentos Mas passou nosso tempo Não podemos negar Foi bom Nós fizemos histórias Pra ficar na memória E nos acompanhar Quero que você viva sem mim Eu vou conseguir também
Depois de aceitarmos os fatos Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém Meu bem Vamos ter liberdade Para amar à vontade Sem trair mais ninguém Quero que você seja feliz Hei de ser feliz também Depois
DESPEDIDA MARTHA MEDEIROS
Existem duas dores de amor: A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver luz no fim do túnel. A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel. A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também... Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender. Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida... Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós. Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar. É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a 'dor-de-cotovelo' propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: "Eu amo, logo existo". Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente... E só então a gente poderá amar, de novo. O amor não acaba Martha Medeiros
O amor não acaba, nós é que mudamos
Um homem e uma mulher vivem uma intensa relação de amor, e depois de alguns anos se separam, cada um vai em busca do próprio caminho, saem do raio de visão um do outro. Que fim levou aquele sentimento? O amor realmente acaba?
O que acaba são algumas de nossas expectativas e desejos, que são subtituídos por outros no decorrer da vida. As pessoas não mudam na sua essência, mas mudam muito de sonhos, mudam de pontos de vista e de necessidades, principalmente de necessidades. O amor costuma ser amoldado à nossa carência de envolvimento afetivo, porém essa carência não é estática, ela se modifica à medida que vamos tendo novas experiências, à medida que vamos aprendendo com as dores, com os remorsos e com nossos erros todos. O amor se mantém o mesmo apenas para aqueles que se mantém os mesmos.
Se nada muda dentro de você, o amor que você sente, ou que você sofre, também não muda. Amores eternos só existem para dois grupos de pessoas. O primeiro é formado por aqueles que se recusam a experimentar a vida, para aqueles que não querem investigar mais nada sobre si mesmo, estão contentes com o que estabeleceram como verdade numa determinada época e seguem com esta verdade até os 120 anos. O outro grupo é o dos sortudos: aqueles que amam alguém, e mesmo tendo evoluído com o tempo, descobrem que o parceiro também evoluiu, e essa evolução se deu com a mesma intensidade e seguiu na mesma direção. Sendo assim, conseguem renovar o amor, pois a renovação particular de cada um foi tão parecida que não gerou conflito.
O amor não acaba. O amor apenas sai do centro das nossas atenções. O tempo desenvolve nossas defesas, nos oferece outras possibilidades e a gente avança porque é da natureza humana avançar. Não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice. Paixão termina, amor não. Amor é aquilo que a gente deixa ocupar todos os nossos espaços, enquanto for bem-vindo, e que transferimos para o quartinho dos fundos quando não funciona mais, mas que nunca expulsamos definitivamente de casa.
Dedico esta postagem para uma pessoa querida que sempre fará parte da minha história e da minha memória.
É muito comum que a base dos relacionamentos de casais estabeleça-se sobre uma distorção da realidade, sem que disso se tenha consciência. A demanda que fica é: “Não me sinto inteira (o), sou incompleta (o) enquanto pessoa”, e daí vem uma extrema necessidade de se encontrar a outra metade.
Metaforicamente, sendo metade de algo que nem sei direito o quê ou quem, o senso de identidade e auto-estima fica prejudicado. Disto resulta colocar nessa metade faltante, expectativas e exigências para dela obter a comprovação de que existo e mereço amor, segurança, felicidade, etc.
Este é o cenário no qual verdadeiros dramas acontecem, no palco chamado vida, onde todos atuam seus personagens, uma grande ficção com direção própria, produzida e enviada diretamente do inconsciente. Às vezes rindo, outras chorando, sendo protagonista ou telespectador da história de Cinderela, adaptada ao século XXI, a situação se repete: “Se me amasse de verdade, faria tudo por mim!”. E assim, as condições são impostas e nem sempre verbalizadas. O outro até deve adivinhá-las, igual mamãe que já sabia e gratificava ou não, todos os meus desejos. Abraços, beijos, elogios, acompanhar-me nos meus interesses, afirmar e reafirmar seu amor o tempo todo.
Supondo que haja amor, sufoca com tamanhas exigências. Passa a ser tremendo encargo sobre os ombros do outro, que também tem suas próprias questões. Também o inverso costuma ocorrer: “Eu o amo, vivo para satisfazê-lo, sem ele não sobrevivo, falta o ar e o chão sobre o qual me apoio, não posso perdê-lo, portanto me anulo pois sou apenas extensão do outro”.
As configurações e interações que a dimensão emocional humana compõem, fornecem o material para infinitas criações imaginárias e, quase sempre, são atuadas em fatos reais. Todos nós reconhecemos esses conflitos. Em proporção variável, somos agentes de prazer e felicidade do outro, ou este outro acaba sendo o nosso objeto de prazer e felicidade. Revendo nossas histórias, compreendemos os porquês.
Compartilhamos a experiência de desamparo e, nesse enredo, existe a dependência de um outro que nos garanta a sobrevivência. Sendo esse outro o representante da falta que é deslocada e reeditada nas vivências emocionais atuais com nosso parceiro, a ele delegamos o papel que foi um dia o da mãe. Pobre dele e pobre de nós!
Crianças brincando de serem adultas, vivendo em um mundo de “faz de conta”.
Um dos filmes que mais gosto é Colcha de Retalhos (How to Make an American Quilt).
Difícil encontrar um filme tão sensível e que retrata tão bem a alma humana,
confusa, complexa e nada fixa.
Enquanto elabora sua tese e se prepara para se casar, Finn Dodd (Wynona
Ryder), uma jovem mulher, vai morar na casa da sua avó materna (Ellen Burstyn).
Ela decide passar esse tempo na casa de sua avó para, assim, poder refletir
sobre seus sentimentos. Na casa da avó Finn revive uma experiência já muito
conhecida, desde a infância. Lá estão várias amigas da família, que preparam
uma elaborada colcha de retalhos como presente de casamento. É tradição por lá
que as mulheres teçam colchas de retalho como presente de casamento. E enquanto
elas se dedicam a atividade, relembram antigas histórias de relacionamentos
amorososos. Neste meio tempo Finn se sente atraída por um desconhecido, criando
dúvidas no seu coração que precisam ser esclarecidas.
Tendo as mulheres decidido pela colcha de retalhos como presente de
casamento, cada uma, então, se incumbe de bordar seus retalhos para no final
juntarem as peças e comporem a colcha. O interessante é que não são retalhos
quaisquer, mas quadrados que ilustram a história amorosa de cada uma. A colcha
tecida tem como tema “Onde mora o amor?”. As figuras ou desenhos representam a
mulher que os compôs. A jovem, provavelmente movida pelo momento conflituoso
por que passa, acaba conversando com cada uma delas, onde tem a oportunidade de
ouvir relatos vivos sobre essas experiências. Assim, enquanto o trabalho é
feito, Finn ouve o relato de paixões e envolvimentos, nem sempre moralmente
aprováveis mas repletos de sentimentos, que estas mulheres tiveram. Passamos a
conhecer os vários “retalhos” de amor, com a sua beleza, tristeza, decepções e
esperanças… Enfim, as versões femininas sobre seus homens e a relação com eles.
How to Make an American Quilt é um filme feminino, onde os homens, claro, são o tema frequente, mas
ocupam um papel coadjuvante. A colcha completa, que vai cobrir aquela jovem e
seu futuro marido, reúne todas as histórias de amor e representa a feminilidade
daquelas mulheres. O filme é um drama romântico sobre o universo feminino, e
nos envolve com a vida das costureiras e seus mundos interiores. Cada retalho
que compõe a colcha traz uma simbologia. O jardim de rosas amarelas,
simbolizando o cenário de um grande amor. O retalho de Sophia Darling é o mesmo
do seu vestido que usara no seu primeiro encontro de amor, representando ondas.
A esposa traída confecciona em seu retalho os objetos de pintura representando
o seu amor, e assim por diante.
O filme é muito bem “tecido”, permitam-me o verbo. É tecido como uma
alegoria – a alegoria da colcha de retalhos. No início do filme pode-se
observar uma cena que foca o desenrolar de um carretel de linha, fazendo uma
comparação entre este procedimento e a vida do ser humano. E o que acontece naqueles
diálogos de Finn com aquelas mulheres mais velhas é exatamente isso. Outros
símbolos aparecem no filme: a cor vermelha, um poema, os morangos, um corvo…
Num ponto clímax do filme um forte vendaval inrompe como uma metáfora das
idéias da moça, e do conturbado momento no drama. A cabeça da jovem noiva está
confusa principalmente depois da conversa com sua mãe. Finn entra em conflito
não sabendo ao certo se realmente quer se casar, pois em toda a sua vida ouviu
de sua mãe que o casamento era uma grande bobagem, e que compromissos
monogâmicos para toda a vida eram impossíveis de se cumprir. Depois do vendaval
tudo ficou mais claro para Finn, e também para as outras mulheres. Colcha de Retalhos é uma alegoria primorosa, rica em
detalhes e sutilezas, que você não deve deixar de assistir.
How to Make an American Quilt foi lançado em 1995 nos Estados Unidos. Conta com a excelente direção de
Jocelyn Moorhouse, e desempenhos muitos bons de Wynona Ryder, Anne Bancroft,
Ellen Burstyn, Kate Nelligan, Alfre Woodard, entre outros. Dedique alguma
atenção à excelente trilha sonora organizada por Thomas Newman. Em alguns
momentos as músicas escolhidas para o fundo vestem como uma luva; melhor
dizendo, encaixam-se na trama como retalhos meticulosamente escolhidos para compor
toda a harmonia da colcha das quilteiras.
A tradição das colchas de patchwork é algo muito bonito na cultura norte-americana. Quando me hospedei em
casas norte-americanas me foram oferecidas essas colchas como parte da boa
hospitalidade. Conheci uma senhora americana que, por um longo tempo, teceu uma
colcha de patchwork utilizando retalhos de roupas marcantes que seus filhos vestiram quando
eram crianças. As colchas de patchwork não têm apenas uma função prática (agasalhar), ou decorativa e estética,
mas são muito mais uma expressão de arte doméstica ou familiar em que se conta
uma história ou se traduz um tema. É como um quadro que cumpre uma função
emocional, afetiva. Dentre os amigos que tenho, há uma em especial que sabe
tecer o patchwork com grande habilidade, reunindo revistas especializadas
norte-americanas, os materiais próprios, as diversas técnicas, etc. O patchwork é uma arte comovente, e como tal
exige sensibilidade e esmero. Claro que hoje você pode comprar destas colchas
em feiras, ou mesmo industrializadas, mas neste caso o objeto cumpre apenas a
sua função prática usual e o seu aspecto decorativo.
A tradução literal de patchwork é "trabalho com retalho". Leio
num artigo especializado que o patchwork “e uma técnica que une tecidos com uma
infinidade de formatos variados. O patchwork é a parte superior ou topo do
trabalho, já o trabalho completo é o acolchoado, formado pelo topo mais a manta
acrílica e o tecido fundo, tudo preso por uma técnica conhecida como quilting ou acolchoamento”.
A cor é o elemento que mais chama a atenção numa peça de patchwork. O
conhecimento da cor é uma boa base para obter ótimos resultados. Saber combinar
as cores e os tons e conseguir uma harmonia entre eles, é um grande passo para
quem deseja fazer um bom trabalho em patchwork.
Em meados do século XVII, a arte de quiltar chegou às Américas, mais
especificamente aos Estados Unidos e Canadá. Trazida pelos colonizadores, era
comum ver colchas feitas de linho ou lã, em panos inteiros ou a partir de
medalhões centrais e bordas, que permitiam o aproveitamento total de retalhos,
já que tecidos eram considerados preciosidade, assim como linhas e agulhas (que
eram passadas de mãe para filha). As técnicas eram transmitidas pelas mães e
avós para suas descendentes, assim surgiram muitas tradições relacionadas a
tecidos, cores e desenhos. Uma tradição de meados de 1800 pedia que a moça
fizesse doze colchas antes de poder casar, sendo que a última deveria utilizar
os blocos Double Wedding Ring (dois anéis de casamento entrelaçados). No período da Grande Depressão,
após a quebra da Bolsa de Valores, isto é, entre 1929 e 1939, as quilteiras
aproveitavam todo e qualquer tecido disponível, usando formatos como o Apple Core (miolo de maçã) e os triângulos, que permitiam aproveitamento total dos
tecidos.