"AMA E FAZ O QUE QUISERES. SE CALARES, CALARÁS COM AMOR; SE GRITARES, GRITARÁS COM AMOR; SE CORRIGIRES, CORRIGIRÁS COM AMOR; SE PERDOARES, PERDOARÁS COM AMOR. SE TIVERES O AMOR ENRAIZADO EM TI, NENHUMA COISA SENÃO O AMOR SERÃO OS TEUS FRUTOS."
Santo Agostinho
Recentemente li o livro O Outro Pé da Sereia do escritor moçambicano Mia Couto.
O outro Pé da sereia traça duas histórias uma delas a história de Dom Gonçalo da Silveira, jesuíta português, que se destina à corte Monomotapa, levando consigo uma imagem de Nossa Senhora.
A outra história fala de Mwadia que, como Dom Gonçalo leva uma imagem de Nossa Senhora, saindo de seu vilarejo, chamado Antigamente até sua cidade natal, Vila Longe.
Cada personagem, tanto da nau de Dom Gonçalo quanto da cidade de Vila Longe é riquíssima e Mia nos causa grande deleite em ler essa história. Sofrida, é verdade, mas encantadora nos traços e nas palavras que o autor revela à cada página.
Enfim, Mia consegue retratar a relação “português caucasiano X negro africano” e a singularidade de cada fé, seja chamando Nossa Senhora de Virgem de Nazaré, seja chamando-a de Kianda, a deusa das águas.
No entanto não é sobre isso que gostaria de falar, hoje. Gostaria de falar de Vila Longe, cidade natal de Mwadia, que paulatinamente vai se tornando querida aos nossos olhos. Mwadia chega em Vila Longe e encontra uma cidade destruída e agarrada a um único fio de esperança, a chegada de negros estadosunidenses em busca de suas raízes. A partir daí a cidade forja uma memória da escravidão, que prima dizer aquilo que o afro americano deseja ouvir. O intuito é deixá-lo satisfeito. Sabem como é... agradar o cliente.
É nisso que fiquei pensando muito tempo:
Qual a necessidade de descobrirmos as raízes de nosso povo?
Creio ser de vital importância, no entanto estaríamos preparados a ter toda a construção da história de nossos antepassados destruída (ou não).
No caso de O Outro Pé da Sereia, Mia conta a história de Vila Longe, uma vila com habitantes negros que vendiam homens tão negros quanto eles para estes serem escravos em terras além mar. Ou ainda escravizavam os semelhantes ali mesmo em suas tribos.
A busca pelas suas raízes é muito presente entre negros. O que deveria ser feito por todas outras etnias. Não só a busca pelas raízes como também a preservação de sua cultura, coisa que o negro também faz muito bem, o que facilita muito o encontro com sua gênese. No entanto ao investigar suas raízes o negro corre o risco de descobrir que teve uma raiz opressora de seu semelhante. Claro que isso não tira o status de oprimido que o negro infelizmente vive nos dias de hoje, seja no preconceito comedido que o brasileiro ainda tem, seja no padrão de beleza que a mídia nos impõe (com seus cabelos lisos e ancas finas), seja na “periferiarização” do cidadão negro. O negro é oprimido, foi oprimido ao chegar aqui, foi oprimido na África em diversos momentos, no entanto, ainda na África ele também foi opressor, em muitos casos.
Fico imaginando o quão diferente o Brasil seria se conseguíssemos preservar nossa cultura como o negro consegue. Falo em Brasil porque apesar de sermos um país localizado na America Latina não consigo enxergar a latinidade existente em todos os outros países latinos aqui no Brasil. Indo além, não consigo enxergar interesse dos brasileiros em se igualar com seus hermanos latinos. Existe ainda, é triste dizer, um sentimento de superioridade em relação aos nossos vizinhos.
Não consigo, hoje, enxergar uma identidade latina no Brasil. O apego à terra, às suas tradições, a sua gente, aos seus antepassados, à sua pátria. Isso é tão bonito de se ver em países como Peru, Bolívia, Venezuela, Chile...
Existem sim grandes grupos que buscam por essa cultura latina, no entanto não é essa a realidade da grande massa que anseia um país economicamente bem sucedido e para isso se molda em nações falidas ditas de primeiro mundo.
O Brasil de hoje é diferente do Brasil de 20 anos atrás, bem como os Estados Unidos e bem como a América Latina. Hoje temos voz . No entanto corremos na direção de nosso desejo de se tornar país de primeiro mundo. Ora, os países de primeiro mundo estão vindo bater na nossa porta, então, por que ainda temos esse desejo doidivanas de ser igual a um país que não deu certo?
Não deu certo! Esse modo de “evolução” não funcionou. Esse é o momento de crescermos, claro, mas crescer do nosso jeito e uma das coisas primordiais é nos voltarmos pra nossa latinidade que tantos escondem com tanta vergonha. Somos latinos sim, somos vermelhos sim, nossa cultura hoje é uma grande mistura de tantas outras, negra,caucasiana, andina, e sim, brasileira.
Então proponho que paremos de tentar copiar o modo de vista dos outros. Proponho ainda que preocupemo-nos com a preservação dessa cultura tão rica e tão cheia de detalhes. Que aceitemos nossa condição de oprimidos e de opressores também.
“A viagem termina quando encerramos as nossas fronteiras interiores, regressamos a nós mesmos, não a um lugar” Mia Couto em O outro pé da Sereia.
Somos latinos!
Bem, O outro pé da sereia traz a tona outras tantas reflexões. Um livro delicioso de se ler e envolvente nos detalhes de cada personagem.
A forma que Mia escreve, faz com que o livro dance entre a prosa e a poesia de modo que o leitor não saberá mais ao certo o que estará lendo, apenas sentirá e refletirá... o que é uma delicia!
“Um livro é uma canoa. Este era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma.” Mia Couto em O outro pé da Sereia.
Leia-o, ele merece.
Agora...Traz mais uma!
Artigo da autoria de Jeferson Batista. Traz mais uma que ainda tem assunto.... Saiba como fazer parte da obvious.
Bom, Nada mais inseguro do que um escritor
numa conferência sobre segurança, um
escritor que se sente um pouco solitário porque foi o único convidado nesta e
na anterior edição… preciso de um abrigo, preciso de um refúgio… é um texto que
vou ler… o presidente tinha dito que eu devia falar espontaneamente... não sou
capaz em sete minutos. Eu escrevi este texto que vou ler e chama-se
Comemorar o Medo.
Comemorar o Medo
O medo foi
um dos meus primeiros mestres. Antes de
ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros,
fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem.
Os anjos actuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença
entre sentimento e realidade.
Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram
a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as
crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e
conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em
ambiente que reconhecemos. Os
meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais
protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha
cultura, do meu território.
O medo foi afinal o mestre
que mais me fez desaprender. Quando
deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a
coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se
mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há
neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a
narrativa do medo tinha um invejável casting internacional.Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela
independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os
fantasmas:morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram
restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes
respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é
um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção
de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano.
Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no
poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história e, a mais grave
dessa longa herança de intervenção externa, é a facilidade com que as elites
africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas
o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do
medo a oriente e a ocidente e, por que se trata de entidades
demoníacas, não bastam os seculares meios de governação, precisamos de
intervenção com legitimidade divina. O
que era ideologia passou a ser crença. O que era política tornou- se religião. O que era religião passou a ser estratégia de
poder.
Para fabricar armas é preciso
fabricar inimigos. Para produz ir inimigos
é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um
dispendioso aparato e um batalhão de
especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que
nos dizem: Para superarmos as ameaças
domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e
menos privacidade.
Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de
mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem
que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia
começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que,
de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos
e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento
que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a
humanidade,imprevisível. Vivemos como cidadãos e como espécie em
permanente situação de emergência.
Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida
e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas essas restrições servem para que não sejam
feitas perguntas, como por exemplo estas:
·Por que motivo a
crise financeira não atingiu a indústria do armamento?
·Por que motivo se gastou, apenas no ano passado,
um trilião e meio de dólares em armamento militar?
·Por que razão os
que hoje tentam proteger os civis na Líbia são
exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi?
·Por que motivo se realizam mais seminários sobre
segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança
mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e
urgentes.
Há uma arma de destruição maciça que está
sendo usada todos os dias, em todo o mundo,
sem que seja preciso o pretexto da guerra, essa arma chama-se fome! Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos
passa fome. O custo para superar a
fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em
armamento. A fome será, sem dúvida, a maior
causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei
ainda uma outra silenciada violência. Em todo o mundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violência física
ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma
condenação antecipada pelo facto simples de serem mulheres.
A nossa
indignação porém é bem menor que o medo! Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de umexército sem nome e, como militares sem
farda, deixamos dequestionar. Deixamos de fazer
perguntas e discutir razões. As questões de ética
são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque
estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de
legalidade.
É sintomático que a única
construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a
Grande Muralha, que foi erguida para
proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem
parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha
do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns
trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção.
Esses corpos convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo
nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e
ricos mas não há hoje no mundo um muro que
separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do
norte, do ocidente e do oriente.
Citarei
Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global, e dizer: Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os
que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo
da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas
têm medo da falta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo
que o medo acabe.
Escritor e jornalista moçambicano, António Emílio Leite Couto nasceu em 1955, na Beira, filho de uma família de emigrantes portugueses chegados a Moçambique no princípio da década de 50. Fez a escola primária na Beira. Em 1971, iniciou os seus estudos de Medicina na Universidade de Lourenço Marques (actualmente, Maputo). Por esta altura, o regime exercia grande pressão sobre os estudantes universitários. Ligado à luta pela independência de Moçambique, tornou-se membro da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).
A partir do 25 de Abril e da independência de Moçambique, interrompeu os estudos para trabalhar como jornalista, em primeiro lugar, em "A Tribuna" , juntamente com Rui Knopfli. Nessa altura tornou-se também director da Agência de Informação de Moçambique (AIM). Participou na revista "Tempo" até 1981, ficando, depois, no "Notícias" até 1985. Altura em que ingressou na Universidade Eduardo Mondlane para tirar o curso de Biologia.
O seu primeiro livro, "Raiz de Orvalho" (poemas), foi publicado em 1983. Segundo o próprio autor, consiste numa espécie de contestação contra o domínio absoluto da poesia militante e panfletária. Seguiram-se, entre outros, Vozes Anoitecidas (1986), livro de contos com que se estreou na ficção e que foi premiado pela Associação de Escritores Moçambicanos; "Cada Homem é uma Raça" (1990), "Cronicando" (1988), livro de crónicas; "Terra Sonâmbula" (1992), o seu primeiro romance; "Estórias Abensonhadas" (1994), "A Varanda do Frangipani" (1996), "Contos do Nascer da Terra" (1997), "Vinte e Zinco" (1999) e "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra" (2002). Em 2001, em Portugal, Mia Couto recebeu na Fundação Calouste Gulbenkian o Prémio Literário Mário António (prémio atribuído a escritores africanos lusófonos ou escritores timorenses de três em três anos) pela sua obra "O Último Voo do Flamingo".
In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2005.
SER,PARECER
Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida
Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos.
O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.
A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.
Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.
Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.
Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.
Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.
escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico
sangro norte
em coração do sul
na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo
hei-de
começar mais tarde
por ora
sou a pegada
do passo por acontecer...