TRAVESSEIRO SUSPENSO POR FIOS DE NYLON

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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CORA CORALINA: Uma Mulher Muito Além do Seu Tempo







Saber Viver 
 (leitura do ator Juca de Oliveira)
Não sei... se a vida é curta
ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
Mas que seja intensa,
verdadeira, pura...
Enquanto durar.

Cora Coralina



CORA CORALINA, do coração do Brasil para o coração dos brasileiros
BIOGRAFIA 
















“Não é  o poeta que cria a poesia.
E sim, a poesia que  condiciona o poeta.”

Em 1889, nasceu, na mítica casa velha da ponte, na cidade de Goiás, antiga Villa Boa de Goyas, a poetisa Cora Coralina. Trazendo nas veias o sangue de autores como Olavo Bilac e Luis Ramos de Oliveira Couto, Cora Coralina alcançou o respeito e a admiração de autores como Monteiro Lobato e Carlos Drummond de Andrade, que após ler seus poemas, publicou um elogioso artigo no Jornal do Brasil, em 1980. A partir daí, a autora passou a conquistar o reconhecimento de todo o Brasil.
A historia de Cora Coralina está intimamente ligada a historia do estado de São Paulo, tendo ela se envolvido ativamente a Revolução Constitucionalista de 1932 e morado em varias cidades do interior de São Paulo. Em 1922, a autora foi convidada a participar da Semana da Arte Moderna, realizada no Theatro Municipal de São Paulo, que viria a revolucionar a produção artística do Brasil, mas, infelizmente, seu marido a impediu.
Cora Coralina não legou apenas belos poemas, mas legou uma historia de vida exemplar e muito adiante de seu tempo.
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs, que desde jovem adotou o pseudônimo de Cora Coralina, graças ao talento e sensibilidade incomuns, superou as limitações impostas pela vida. Cedo aprendeu a magia das palavras, mesmo tendo como instrução apenas três anos de escola. Aos 14 anos, publicou o primeiro conto. Em um tempo em que as mulheres eram criadas para o casamento, preferia as reuniões do Gabinete Literário. Ao deixar Goiás ainda jovem, para se casar, Cora levou impressas na memória as lembranças da infância e da paisagem de sua terra. Mesmo depois de viúva, vivendo em São Paulo e obrigada a trabalhar duro para manter a família, conservou bem guardada sua chama poética e a goianidade de sua alma. A volta a Goiás, em 1956, depois de 45 anos de ausência, produziu o desabrochar da autora. Fazia doces para ganhar a vida e versos para alimentar o espírito. Aos 76 anos, publicou seu primeiro livro. O olhar arguto e o lirismo que nela transbordava extraíram poesia dos modos, costumes, historias, tradições e sentimentos da sua gente simples. Seus versos, justamente pela simplicidade e autenticidade, traduzem as aspirações e experiências do povo brasileiro.
(Fonte: Cora Coralina, coração do Brasil – Museu da Língua Portuguesa)

 (Casa de Cora sendo restaurada - arquivo pessoal)

Casa de Cora Coralina - Goiás Velho (hoje um  museu)

 (Rio Vermelho tema de tantos escritos)
(Ponte sobre o Rio Vermelho - arquivo pessoal)






Com um estilo pessoal, ela foi poetisa e uma grande contadora de histórias das coisas de sua terra. A espontaneidade, o cotidiano e as imagens que retratam o povo do seu Estado, costumes e sentimentos, são temas constantes de suas publicações. Assim, sua obra é considerada por vários autores um registro histórico-social do século 20, especialmente da região do serrado do Centro-Oeste brasileiro, onde nasceu e morreu.

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins de Guimarães Peixoto Brêtas, nasceu em 20 de agosto de 1889, no estado de Goiás (Goiás Velho). Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, cursou apenas até a terceira série do primário e iniciou sua carreira literária aos 14 anos, publicando seu primeiro conto "Tragédia na Roça", em 1910, no "Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás".

Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Era chamada Aninha da Ponte da Lapa e trabalhou como doceira, na cozinha da Casa da Ponte, produzindo seus versos ao pé do fogão. Considerava os doces cristalizados de caju, abóbora, figo e laranja, que encantavam os vizinhos e amigos, obras melhores do que os poemas escritos em folhas de caderno.


(Cozinha de Cora Coralina sendo restaurada - arquivo pessoal)

Virou Cora Coralina pois o pseudônimo era uma exigência para disfarçar a escritora, já que naquela época moça prendada não perdia tempo com manuscritos. O amor às letras foi o sustentáculo dessa mulher. Mesmo sofrendo preconceitos e dissabores ao longo da vida - que a atrasaram, mas não a impediram - ela decolou no mundo das palavras.

Em 1911 conheceu o advogado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem fugiu para morar em Jaboticabal, São Paulo, onde nasceram seus seis filhos. O fato de Cantídio ser homem separado, com filhos do casamento e inclusive uma filha, fruto de romance com uma índia, não desanimou Cora, que inclusive ajudou a criar a filha. Em 1922, foi convidada por Monteiro Lobato para integrar-se à Semana de Arte Moderna,mas seu marido a proibiu de participar de tal evento.


Saraus literários ou não, Cantídio não gostava de ver a capacidade da mulher. A Cora ousada, que deixou para trás preconceitos sociais, pouco ligava. Publicava artigos nos jornais de Jaboticabal, construía poesias e costurava contos. Flagrada na cidade pela Revolução Constitucionalista de 1932, alistou-se como enfermeira - a filha mais nova, Vicência, encontrou a ficha de inscrição após a sua morte, perdida entre centenas de textos inéditos. Costurava bonés para soldados, uniformes e aventais para enfermeiras.


Com a morte do marido, Cora passou a se sustentar com a venda de livros, pela José Olympio Editora, a mesma editora que publicaria mais tarde o seu primeiro livro. Para ela, o valor de sua obra estava justamente na quietude vivida por muitos anos, nas dores e sentimentos de uma vida curtida pelo tempo. Voltou a morar em Goiás 45 anos depois, já produzindo sua obra definitiva. Seu reencontro com a cidade e as histórias de sua formação alavancaram seu espírito criativo. Tradições e festas religiosas, comidas típicas da região, famílias e seus "causos", tudo motivava a escritora a fazer uma ponte entre o passado e o presente da cidade, numa tentativa de registrar sua história e entender as mudanças. Com a mesma rica simplicidade de seus personagens, Cora fazia doces cristalizados para vender.








Aos 70 anos decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e enviá-las aos editores e, somente aos 76, conseguiu realizar o sonho de publicar seu primeiro livro, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Sua apresentação ao mundo literário nacional aconteceu quase aos 90 anos, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade que durante muitos anos homenageou Cora em diversas cartas e publicações.


Entre as publicações de Cora Coralina estão: "Meu Livro de Cordel", "Vintém de Cobre", "Estórias da Casa Velha da Ponte", "O Tesouro da Casa Velha", "Os Meninos Verdes" e "A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu", pela qual recebeu títulos e prêmios. Em 1983, lançou "Vintém de Cobre-Meias Confissões de Aninha", recebendo em seguida o Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores, que a elegeu a Intelectual do Ano. 



Ela era simples mas foi doutora "feita pela vida, pelo estudo incessante de tudo quanto aconteceu em seu derredor", palavras da reitora de Universidade Federal de Goiás. E Cora Coralina recebeu realmente o título de Doutora Honoris Causa daquela Universidade. Em 1984, foi reconhecida Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO (Organização das Nações Unidas para agricultura e alimentação). Também entrou para a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.


Cora Coralina faleceu em Goiânia a 10 de abril de 1985. A casa em que morava, construída por volta de 1770, foi transformada em museu depois da sua morte. Em 2001, o Rio Vermelho, que corta a cidade histórica, transbordou depois de uma forte chuva, destruindo toda a arquitetura histórica da cidade. Com a inundação atingindo a casa de Cora, o acervo do museu composto de cadernos com poemas e contos, ainda não publicados, cartas, móveis e objetos pessoais da escritora, foram seriamente danificados. Depois de pouco mais de um ano, novos investimentos garantiram a recuperação de pontos turísticos, incluindo a casa de Cora Coralina.


Um pouco mais de sua história

O Quintal de Cora




Aninha e suas pedras 

Não te deixes destruir... 
Ajuntando novas pedras 
e construindo novos poemas. 
Recria tua vida, sempre, sempre. 
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. 
Faz de tua vida mesquinha 
um poema. 
E viverás no coração dos jovens 
e na memória das gerações que hão de vir. 
Esta fonte é para uso de todos os sedentos. 
Toma a tua parte. 
Vem a estas páginas 
e não entraves seu uso 
aos que têm sede.




Das Pedras 
Ajuntei todas as pedras 
que vieram sobre mim. 
Levantei uma escada muito alta 
e no alto subi. 
Teci um tapete floreado 
e no sonho me perdi. 
Uma estrada, 
um leito, 
uma casa, 
um companheiro. 
Tudo de pedra. 
Entre pedras 
cresceu a minha poesia. 
Minha vida... 
Quebrando pedras 
e plantando flores. 
Entre pedras que me esmagavam 
Levantei a pedra rude 
dos meus versos.


"Oração do Milho"

Senhor,  nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso,
Nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste, e se me ajudardes, Senhor, mesmo planta
De acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos
o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo
E de mim não se faz o pão alvo universal.
O justo não me consagrou Pão de Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que
Trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre,
Alimento de rústicos e animais do jugo.
Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
Coroados de rosas e de espigas,
Quando os hebreus iam em longas caravanas
Buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,
Quando Rute respigava cantando nas searas do Booz
E Jesus abençoava os trigais maduros,
Eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.
Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,
Que me fizestes necessário e humilde.
Sou o milho.

INTÉRPRETE: Lauro Moreira.
MONTAGEM: Leandro Caetano


Eu Creio 
 

Creio nos valores humanos 
e sou a mulher da terra. 
... 
Creio na força do trabalho 
como elos e trança do progresso. 

Acredito numa energia imanente 
que virá um dia ligar a família humana 
numa corrente de fraternidade universal. 

Creio na salvação dos abandonados 
e na regeneração dos encarcerados, 
pela exaltação e dignidade do trabalho. 
... 
Acredito nos jovens 
à procura de caminhos novos 
abrindo espaços largos na vida. 
Creio na superação das incertezas 
deste fim de século.








Cora Coralina (1/2) - De Lá Pra Cá - 21/09/2009


 continua...   2/2


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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"A Coisa mais Moderna que existe nessa vida é Envelhecer."

Arnaldo Antunes canta e fala sobre "Envelhecer"
 "Palestra" (entrevista) de Arnaldo Antunes no 1º Salão Internacional do Livro da Paraíba,
 falando sobre a música "Envelhecer" e cantando um pedacinho dela. 23/11/2010 Teatro de Arena

"A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer...
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer...
Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer
Eu quero que o tapete voe no meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe e me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone no ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome que me chamem de velho gagá.
Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
com os ralos fios de cabelo sobre a testa que não pára de crescer
não sei porque essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr
não quero morrer pois quero ver como será que deve ser envelhecer
eu quero é viver pra ver qual é e dizer venha pra o que vai acontecer
eu quero que o tapete voe..."
http://www.vagalume.com.br/arnaldo-antunes/envelhecer.html#ixzz1Vu62taxg


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Colcha de Retalhos: um filme muito bem “tecido”

How to Make An American Quilt

Um dos filmes que mais gosto é Colcha de Retalhos (How to Make an American Quilt). Difícil encontrar um filme tão sensível e que retrata tão bem a alma humana, confusa, complexa e nada fixa.
Enquanto elabora sua tese e se prepara para se casar, Finn Dodd (Wynona Ryder), uma jovem mulher, vai morar na casa da sua avó materna (Ellen Burstyn). Ela decide passar esse tempo na casa de sua avó para, assim, poder refletir sobre seus sentimentos. Na casa da avó Finn revive uma experiência já muito conhecida, desde a infância. Lá estão várias amigas da família, que preparam uma elaborada colcha de retalhos como presente de casamento. É tradição por lá que as mulheres teçam colchas de retalho como presente de casamento. E enquanto elas se dedicam a atividade, relembram antigas histórias de relacionamentos amorososos. Neste meio tempo Finn se sente atraída por um desconhecido, criando dúvidas no seu coração que precisam ser esclarecidas.
Tendo as mulheres decidido pela colcha de retalhos como presente de casamento, cada uma, então, se incumbe de bordar seus retalhos para no final juntarem as peças e comporem a colcha. O interessante é que não são retalhos quaisquer, mas quadrados que ilustram a história amorosa de cada uma. A colcha tecida tem como tema “Onde mora o amor?”. As figuras ou desenhos representam a mulher que os compôs. A jovem, provavelmente movida pelo momento conflituoso por que passa, acaba conversando com cada uma delas, onde tem a oportunidade de ouvir relatos vivos sobre essas experiências. Assim, enquanto o trabalho é feito, Finn ouve o relato de paixões e envolvimentos, nem sempre moralmente aprováveis mas repletos de sentimentos, que estas mulheres tiveram. Passamos a conhecer os vários “retalhos” de amor, com a sua beleza, tristeza, decepções e esperanças… Enfim, as versões femininas sobre seus homens e a relação com eles.
How to Make an American Quilt é um filme feminino, onde os homens, claro, são o tema frequente, mas ocupam um papel coadjuvante. A colcha completa, que vai cobrir aquela jovem e seu futuro marido, reúne todas as histórias de amor e representa a feminilidade daquelas mulheres. O filme é um drama romântico sobre o universo feminino, e nos envolve com a vida das costureiras e seus mundos interiores. Cada retalho que compõe a colcha traz uma simbologia. O jardim de rosas amarelas, simbolizando o cenário de um grande amor. O retalho de Sophia Darling é o mesmo do seu vestido que usara no seu primeiro encontro de amor, representando ondas. A esposa traída confecciona em seu retalho os objetos de pintura representando o seu amor, e assim por diante.
O filme é muito bem “tecido”, permitam-me o verbo. É tecido como uma alegoria – a alegoria da colcha de retalhos. No início do filme pode-se observar uma cena que foca o desenrolar de um carretel de linha, fazendo uma comparação entre este procedimento e a vida do ser humano. E o que acontece naqueles diálogos de Finn com aquelas mulheres mais velhas é exatamente isso. Outros símbolos aparecem no filme: a cor vermelha, um poema, os morangos, um corvo… Num ponto clímax do filme um forte vendaval inrompe como uma metáfora das idéias da moça, e do conturbado momento no drama. A cabeça da jovem noiva está confusa principalmente depois da conversa com sua mãe. Finn entra em conflito não sabendo ao certo se realmente quer se casar, pois em toda a sua vida ouviu de sua mãe que o casamento era uma grande bobagem, e que compromissos monogâmicos para toda a vida eram impossíveis de se cumprir. Depois do vendaval tudo ficou mais claro para Finn, e também para as outras mulheres. Colcha de Retalhos é uma alegoria primorosa, rica em detalhes e sutilezas, que você não deve deixar de assistir.

How to Make an American Quilt foi lançado em 1995 nos Estados Unidos. Conta com a excelente direção de Jocelyn Moorhouse, e desempenhos muitos bons de Wynona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Kate Nelligan, Alfre Woodard, entre outros. Dedique alguma atenção à excelente trilha sonora organizada por Thomas Newman. Em alguns momentos as músicas escolhidas para o fundo vestem como uma luva; melhor dizendo, encaixam-se na trama como retalhos meticulosamente escolhidos para compor toda a harmonia da colcha das quilteiras.

Escrito por Leandro Avicena
28/07/2010 às 15:30
Publicado em Cinema, Close-up, Mulher
Etiquetado com Jocelyn Moorhouse


A tradição das colchas de patchwork é algo muito bonito na cultura norte-americana. Quando me hospedei em casas norte-americanas me foram oferecidas essas colchas como parte da boa hospitalidade. Conheci uma senhora americana que, por um longo tempo, teceu uma colcha de patchwork utilizando retalhos de roupas marcantes que seus filhos vestiram quando eram crianças. As colchas de patchwork não têm apenas uma função prática (agasalhar), ou decorativa e estética, mas são muito mais uma expressão de arte doméstica ou familiar em que se conta uma história ou se traduz um tema. É como um quadro que cumpre uma função emocional, afetiva. Dentre os amigos que tenho, há uma em especial que sabe tecer o patchwork com grande habilidade, reunindo revistas especializadas norte-americanas, os materiais próprios, as diversas técnicas, etc. O patchwork é uma arte comovente, e como tal exige sensibilidade e esmero. Claro que hoje você pode comprar destas colchas em feiras, ou mesmo industrializadas, mas neste caso o objeto cumpre apenas a sua função prática usual e o seu aspecto decorativo.

A tradução literal de patchwork é "trabalho com retalho". Leio num artigo especializado que o patchwork “e uma técnica que une tecidos com uma infinidade de formatos variados. O patchwork é a parte superior ou topo do trabalho, já o trabalho completo é o acolchoado, formado pelo topo mais a manta acrílica e o tecido fundo, tudo preso por uma técnica conhecida como quilting ou acolchoamento”. A cor é o elemento que mais chama a atenção numa peça de patchwork. O conhecimento da cor é uma boa base para obter ótimos resultados. Saber combinar as cores e os tons e conseguir uma harmonia entre eles, é um grande passo para quem deseja fazer um bom trabalho em patchwork.

Em meados do século XVII, a arte de quiltar chegou às Américas, mais especificamente aos Estados Unidos e Canadá. Trazida pelos colonizadores, era comum ver colchas feitas de linho ou lã, em panos inteiros ou a partir de medalhões centrais e bordas, que permitiam o aproveitamento total de retalhos, já que tecidos eram considerados preciosidade, assim como linhas e agulhas (que eram passadas de mãe para filha). As técnicas eram transmitidas pelas mães e avós para suas descendentes, assim surgiram muitas tradições relacionadas a tecidos, cores e desenhos. Uma tradição de meados de 1800 pedia que a moça fizesse doze colchas antes de poder casar, sendo que a última deveria utilizar os blocos Double Wedding Ring (dois anéis de casamento entrelaçados). No período da Grande Depressão, após a quebra da Bolsa de Valores, isto é, entre 1929 e 1939, as quilteiras aproveitavam todo e qualquer tecido disponível, usando formatos como o Apple Core (miolo de maçã) e os triângulos, que permitiam aproveitamento total dos tecidos.

Escrito por Leandro Avicena
28/07/2010 às 15:30
Publicado em Cinema, Close-up, Mulher
Etiquetado com Jocelyn Moorhouse