TRAVESSEIRO SUSPENSO POR FIOS DE NYLON

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Nise da Silveira - uma psiquiatra rebelde

Nise da Silveira - foto: (...)
Nise da Silveira (médica psiquiatra) nasceu em 15 de fevereiro de 1905 em Maceió (AL), filha do professor de matemática Faustino Magalhães e da pianista Maria Lídia da Silveira. Estudiosa, aos 16 anos  Nise  foi admitida na Faculdade de Medicina da Bahia e aos 21 anos concluiu o curso com uma monografia sobre a criminalidade feminina. Casou-se com o médico sanitarista Mário Magalhães. Começou a trabalhar com psiquiatria, interessada em novos métodos para tratar a esquizofrenia. Veio para o Rio de Janeiro e foi médica interna do Hospital da Praia Vermelha. Na agitação política dos anos 1930, foi denunciada e presa como comunista por 16 meses na Casa de Detenção da rua Frei Caneca. Nise foi reintegrada ao serviço público com a anistia e, em 1946, propôs ao diretor do Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro de Engenho de Dentro na cidade do Rio de Janeiro a criação de uma seção de terapia ocupacional naquele hospital Seu trabalho pioneiro de pesquisa sobre o tratamento da doença mental através da arte-terapia foi reconhecido internacionalmente. A produção artística dos internos foi reunida no Museu de Imagens do Inconsciente, fundado por ela em 1952. Alguns dos artistas revelados pelo trabalho da Dra. Nise alcançaram renome internacional, o mais famoso deles sendo Arthur Bispo do Rosário. Faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 30 de outubro de 1999.
Foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica ("Societé Internationale de Psychopathologie de l'Expression"), sediada em Paris.
:: Fonte: MELO, Hildete Pereira de; MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Nise da Silveira (1905-1999): médica psiquiatra. in: SCHUMAHER, Maria Aparecida (Schuma); BRAZIL, Erico Teixeira Vital.  Dicionário das Mulheres do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2000.
:: Saiba mais: CÂMARA, Fernando Portela. Vida e obra de Nise da Silveira. Psichiatry on line Brasil, vol. 7, n. 9, set. 2002. Disponível no link. (acessado em 23.5.2016).

"A criatividade é o catalisador por excelência das aproximações de opostos. Por seu intermédio, sensações, emoções, pensamentos, são levados a reconhecerem-se entre si, a associarem-se, e mesmo tumultos internos adquirem forma."
- Nise da Silveira, no livro "Imagens do inconsciente". Rio de Janeiro: Alhambra, 1981, p.11.


"O exercício de múltiplas atividades ocupacionais revelava que o mundo interno do psicótico encerra insuspeitadas riquezas e as conserva mesmo depois de longos anos de doença, contrariando conceitos estabelecidos."
- Nise da Silveira, no livro "Imagens do inconsciente". Rio de Janeiro: Alhambra, 1981, p.11.


OBRA DE NISE DA SILVEIRA
Livros
:: Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil. (tese doutorado). Salvador BA: Faculdade de Medicina da Bahia | Imprensa Oficial do Estado, 1926.
:: Jung: vida e obraRio de Janeiro: José Álvaro Edições, 1968; Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1975; 1976; 1985; 1999.
:: Terapêutica Ocupacional: teoria e prática. Rio d Janeiro: Casa das Palmeiras, 1979.
:: Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.
:: Casa das Palmeiras - A emoção de lidar: uma experiência em psiquiatria. [Coordenação e prefácio de uma experiência em psiquiatria Nise da Silveira]. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.
:: O mundo das imagens. São Paulo: Editora Ática, 1992.
:: Nise da Silveira. Brasil - São Paulo: COGEAE|PUC-SP, 1992.
:: Cartas a Spinoza. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
:: Gatos, a emoção de lidar. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 1998.

Em parceria
Nise da Silveira
:: Artaud: a nostalgia do mais. [autores Nise da Silveira, Rubens Corrêa, Marco Lucchesi e Milton Freire]. Rio de Janeiro: Numen Editora, 1989.

Organização
:: A farra do boi: do sacrifício do touro na antiguidade à farra do boi catarinense. [organização Nise da Silveira]. Rio de Janeiro: Numen, 1989.

Escritos dispersos
FERREIRA, Martha Pires (org). Senhora das Imagens Internas: escritos dispersos de Nise da Silveira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2008.

Fotobiografia
MELLO, Luiz Carlos. Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde. (biografia ilustrada). Rio de Janeiro: Automática Edições, 2ª ed., 2015.

Correspondência
LUCCHESI, Marco (org). Viagem a Florença: cartas de Nise da Silveira a Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

“A configuração de mandala harmoniosa, dentro de um molde rigoroso, denotará intensa mobilização de forças auto-curativas para compensar a desordem interna. Então pedi para que fotografassem algumas mandalas e as enviei com uma carta para C. G. Jung, explicando o que se passava. Foi um dos atos mais ousados da minha vida.”
- Nise da Silveira, em "Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde". (fotobiografia), de Luiz Carlos Mello. Rio de Janeiro: Automática Edições, 2ª ed., 2015.


"Porque as vivências sofridas pelos pacientes, bem como as riquezas de seu mundo interior, invisíveis para aqueles que se detêm apenas na miséria de seu aspecto externo, (...) apontam para a necessidade de uma reformulação da atitude face a esses doentes e de uma radical mudança nos tristes lugares que são os hospitais psiquiátricos..."
- Nise da Silveira, no livro "O mundo das imagens". São Paulo: Ática, 1992, p.18.


"O mal está de tal modo solto, que não pode ser combatido com violência, mas sim com música e poesia."
- Nise da Silveira. 


"As imagens do inconsciente, objetivadas na pintura, tornavam-se passíveis de certa forma de trato, mesmo sem que houvesse nítida tomada de consciência de suas significações profundas. Lidando com elas, plasmando-as com suas próprias mãos, o doente as via, agora, menos apavorantes e, mais tarde, até inofensivas. Ficavam despojadas de suas fortes e desintegrantes cargas energéticas."
- Nise da Silveira, no livro "Terapêutica ocupacional: teoria e prática". Rio de Janeiro: Casa das Palmeiras, s/d., p.32.

Emygdio (6.6.1969) - in: 'O mundo das imagens'. Editora Ática, 1992.

“Um dos caminhos menos difíceis que encontrei para o acesso ao mundo interno do esquizofrênico foi dar-lhe oportunidade de desenhar, pintar ou modelar com toda a liberdade. Nas imagens assim configuradas temos autorretratos da situação psiquiátrica, imagens muitas vezes fragmentadas, extravagantes, mas que ficam aprisionadas no papel, na tela ou no barro. Podemos sempre voltar a estuda-las. Foi estudando-os e as imagens que configuravam, que aprendi a respeita-los como pessoas, e desaprendi muito do que havia aprendido na psiquiatria tradicional. Minha escola foram esses ateliês.” 
- Nise da Silveira, em “20 anos de Terapêutica Ocupacional em Engenho de Dentro". Revista Brasileira de Saúde Mental, vol. X, 1966.


Nise da Silveira - foto: (...)
FILMOGRAFIA SOBRE NISE DA SILVEIRA
Filme: Imagens do inconsciente: a barca do sol
"São três artistas. Três histórias de vida. Três casos clínicos". Uma trilogia em que o realizador procurou "uma linguagem cinematográfica que permitisse narrar os filmes a partir dos próprios trabalhos pintados pelos artistas", no serviço de terapia ocupacional e reabilitação criado em 1946 pela dra. Nise da Silveira, no Centro Psiquiátrico Pedro II. São pinturas, desenhos e modelagens que "expressam o mundo interior de três artistas", Fernando Diniz ("a pintura em luta constante contra o caos para recuperar o espaço cotidiano"), Adelina Gomes ("a pintura em luta para expulsar os fantasmas e recuperar a condição feminina") e Carlos Pertuis("a dolorosa busca da consciência da humanidade pelas lendas").
Direção: Leon Hirszman
Ano: 1983-1986
Duração: 205 min.
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Posfácio – Imagens do Inconsciente
O filme é dividido em três episódios: Fernando Diniz - Em busca do espaço cotidiano; Adelina Gomes - No reino das mães; Carlos Pertuis - A barca do sol. O DVD acompanha ainda o extra Posfácio: entrevista com a dra. Nise da Silveira, realizada por Leon Hirszman - o material bruto não editado pelo cineasta torna-se agorafilme em montagem de Eduardo Escorel.
Direção: Eduardo Escorel e Leon Hirszman (Brasil, 1986 -2014)
:: GOMES, Juliano. Posfácio – Imagens do Inconsciente, de Eduardo Escorel e Leon Hirszman (Brasil, 2014). in: Cinética - cinema e crítica, 1 de março de 2015. Disponível no link. (acessado em 23.5.2016).
:: Loja IMS: DVD
Nise da Silveira - Posfácio: imagens do inconsciente



Filme: Nise – O coração da loucura

Sinopse: Ao voltar a trabalhar em um hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, após sair da prisão, a doutora Nise da Silveira (Gloria Pires) propõe uma nova forma de tratamento aos pacientes que sofrem da esquizofrenia, eliminando o eletrochoque e lobotomia. Seus colegas de trabalho discordam do seu meio de tratamento e a isolam, restando a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início a uma nova forma de lidar com os pacientes, através do amor e da arte.
Nise - o coração da loucura (Glória Pires) - direção Roberto Berliner
Gênero: Drama
Ano: 2015
Duração: 108 min.
Ficha técnica
Direção: Roberto Berliner
Roteiro: Flávia Castro, Mauricio Lissovsky, Maria Camargo e Chris Alcazar
Roteiro final: Patricia Andrade, Leonardo Rocha e Roberto Berliner
Direção de fotografia: André Horta
Trilha sonora original: Jaques Morelenbaum
Produtora: TV Zero
Elenco: Glória Pires, Simone Mazzer, Julio Adrião, Claudio Jaborandy, Fabrício Boliveira, Roney Villela, Flavio Bauraqui, Bernardo Marinho, Augusto Madeira, Felipe Rocha, Roberta Rodrigues, Georgiana Góes, Fernando Eiras, Charles Fricks e mais.
:: Ficha técnica completa: Acesse AQUI!


"Haverá doentes artistas e não artistas, assim como, entre os indivíduos que se mantêm dentro das imprecisas fronteiras da normalidade, só alguns possuem a força de criar formas dotadas do poder de suscitar emoções naqueles que as contemplam."
- Nise da Silveira, citado em "Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde", de Ferreira Gullar. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1996, p. 96.


Nise da Silveira - foto: (...)

TRABALHO
Vídeo: A psiquiatra e o artista: Nise da Silveira e Almir Mavignier encontram as Imagens do Inconsciente
Video produzido para apresentação de mestrado no Instituto de Arte por José Otávio Pompeu e Silva
Orientação: Profª|Drª Lucia Reily
Trilha Sonora: Choro das Três (com permissão concedida na época)
Narração: Francine Albiero de Camargo
:: Disponível no link. (acessado em 23.5.2016).


HOMENAGEM
Vídeo: Drª Nise da Silveira
Realização: Procurando Saber
:: Disponível no link. (acessado em 23.5.2016).


Emygdio de Barros e Fernando Diniz - Arquivo Atelier Lou Borghetti
O MUSEU VIVO DE ENGENHO DE DENTRO - NISE DA SILVEIRA
Museu de Imagens do Inconsciente -MII, fundado em 1952 pela Drª Nise da Silveira na cidade do Rio de Janeiro, é um centro de estudos e pesquisa na área da saúde mental.
Unidade do Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, está organizado em 4 setores: Reserva Técnica; Ensino, Pesquisa e Divulgação; Administração; e Ateliês Terapêuticos.
Funcionamento
Aberto ao público de: 2ª a 6ª feira, das 9h às 16h30.
Bairro de Engenho de Dentro – Rio de Janeiro RJ
:: Saiba mais: Acesse AQUI!


"Empiricamente ficou evidente que o cão podia tornar-se um elo intermediário nas relações entre o terapeuta e o esquizofrênico. Com efeito, o cão sendo incondicional nos seus afetos apresenta-se como objeto estável por excelência para relacionamento. Além disso, transborda do calor que os materiais de trabalho não podem oferecer"
- Nise da Silveira, no livro "Terapêutica ocupacional: teoria e prática". Rio de Janeiro: Casa das Palmeiras, 1966, p. 52.

Nise da Silveira - foto: (...)
Seu trabalho e idéias inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas similares às que criou em diversos estados do Brasil e no exterior, por exemplo:

Brasil
:: Museu Bispo do Rosário, da Colônia Juliano Moreira - Rio de Janeiro RJ. 
:: Centro de Estudos Nise da Silveira - Juiz de Fora MG.
:: Espaço Nise da Silveira, do Núcleo de Atenção Psico-Social - Recife PE.
:: Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, do Hospital Psiquiátrico São Pedro - Porto Alegre RGS.
:: Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira -  Salvador BA.

Exterior
:: Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, da Universidade do Porto - Porto| Portugal.
:: Association Nise da Silveira - Images de L'Inconscient - Paris| França.
:: Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli (hoje 'Museattivo Claudio Costa') - Genova| Itália.

O antigo "Centro Psiquiátrico Nacional" do Rio de Janeiro recebeu um sua homenagem o nome de "Instituto Municipal Nise da Silveira".


Obras de pintores - Acervo do Museu Imagens do Inconsciente


A potência do não: Nise da Silveira e Mary Wollstonecraft

nise e mary
“Fala-se na fonte da sabedoria e na fonte da loucura. Mas elas não são duas. Não há fontes separadas, está tudo muito próximo.”– NISE DA SILVEIRA
“A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque”, o psiquiatra apertou o botão e um jovem paciente entrou em convulsão. A expressão de terror foi se aprofundando no rosto dele, até que seu olhar ficasse parado. Vítreo. Vazio de tudo. Antes que ele pudesse se recuperar, foi levado para a enfermaria. Logo trouxeram outro paciente para outra aplicação de choque. O psiquiatra se virou para a senhora a quem pretendia ensinar e disse: “aperte o botão!”. Ao que ela respondeu: “não aperto!”. Era 1944 e Nise da Silveira tinha acabado de ser readmitida no serviço público após oito anos de perseguição e afastamento.
Durante esses anos todos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de Cardiazol. (SILVEIRA apud MELLO, 2014, p. 89)
O não irredutível de Nise mostrou os primeiros contornos daquilo que seria considerado intolerável no tratamento psiquiátrico por todos aqueles que vieram depois dela – de Foucault a Basaglia. Mesmo assim, Nise só alcançou um reconhecimento maior depois que Jung legitimou o seu trabalho. O que fala muito de uma sociedade que ainda reduz a reverberação, ou até mesmo silencia, as vozes femininas que não são amplificadas por vozes masculinas.
A doutora vermelha
Nise chegou ao Rio de Janeiro em 1927, movida pela vontade de estudar neurologia. Ela e o marido, Mário Magalhães da Silveira, alugaram um quarto em Santa Teresa e foram surpreendidos pela vista da Baia da Guanabara e pela vizinhança que deixava ao alcance dos olhos a vida de escritores e militantes políticos. Certo dia, Nise percebeu um jovem batendo insistentemente na porta de Manuel Bandeira. Da janela, disse: “ele acabou de pegar o bonde”. Nise sabia que Bandeira estava em casa, mas a pequena mentira rendeu uma amizade com o poeta que, no dia seguinte, entregou a ela um livro com uma dedicatória em agradecimento. Esses encontros inesperados pareciam guardar um potencial explosivo para produção do novo.
Com o pouco dinheiro que me restava (…) aluguei um pequeno quarto no Curvelo, em Santa Teresa, quarto modesto, mas de onde eu gozava de uma paisagem maravilhosa. Rua muito pobre. Porém, tive a sorte de ter vizinhos extraordinários. De um lado, a família do líder comunista, muito culto, Octávio Brandão (…). Para enriquecer ainda mais essa rua, morava ali o poeta Manuel Bandeira. (Silveira apud Mello, 2014, p. 61)
Esse encontro inesperado entre a medicina, a poesia e a política abriram janelas para que Nise se tornasse quem era: ela não se atinha a livros, tratados e convenções, estava sempre questionando o saber estabelecido. Começou a estudar Marx e frequentar reuniões do Partido Comunista Brasileiro, também fez parte da ala médica da União Feminina Brasileira (UFB), que defendia os interesses de mulheres que viviam em situação precária.
Eu era interessada nas coisas políticas do país, mas sempre tive muita dificuldade em me acomodar em organizações. Eu não me acomodava dentro do Partido Comunista. Eu queria fazer concurso para medicina e os companheiros de partido não se conformavam que eu me dedicasse tanto tempo a esse concurso. Eu estudava dia e noite e, naturalmente, faltava muito às reuniões. Acabaram me expulsando acusada de trotskista. (Idem, p. 67)
Em outubro de 1932, Nise foi morar no Hospital da Praia Vermelha como médica residente. Ficava num pequeno quarto com mesa, cama e uma pia. Ela trabalhava no Instituto de Neurologia, mas estava sempre caminhando entre os pacientes internados no hospício que funcionava num prédio próximo.
Nos livros lia-se que os esquizofrênicos não possuíam afetividade. Comecei a desconfiar dos livros. Morando no hospício, compreendi que não havia nada disso. Eles possuíam afetividade. O problema era como vir à tona. (…) A própria palavra hospício já criava um clima apavorante. Eu andava muito por ali e observava as mulheres internadas. E gostava muito delas. Comecei a me interessar por aquele mundo. (…) Não tive dúvidas iria me especializar em psiquiatria. (…) Desde cedo não concordava com os livros. Via a realidade dos doentes mentais e achava que os médicos da psiquiatria convencional, oficial, não estavam certos. Eram rígidos e partiam de princípios errados. (Idem, p. 70)
Encontrei uma moça que andava de um lado para o outro, como um azougue. Ela não conseguia construir uma frase. Tentei me comunicar (…). Ela não respondeu. Logo em seguida, veio a funcionária da lavanderia, que começou a preencher um rol de roupas e escreveu a palavra peignoir de maneira errada. Qual não foi a minha surpresa ao ver a moça parar, deter-se sobre aquela folha de papel e corrigir a palavra. Nesse momento, compreendi que tinha tentado me comunicar com ela de maneira muito limitada, muito clara, óbvia para mim, mas sem procurar entendê-la. Talvez ela andasse de um lado para outro exatamente para esquecer aquele mundo exterior, que eu vim lembrar a ela, achando que seria o único caminho para nos entendermos. (…) Você não pode querer compreender alguém estabelecendo apenas uma maneira de se aproximar dele. O importante não é a linguagem, é saber se comunicar com o outro. Se não, é como falar português com um árabe. (Idem, p. 71)
Menos de um ano depois de chegar ao Hospital da Praia Vermelha, Nise foi aprovada no concurso para médica psiquiatra da Divisão Nacional de Saúde Mental.
As descobertas do cárcere
Em fevereiro de 1936, início da Ditadura Vargas, a União Feminina Brasileira (UFB) foi fechada. Nise foi presa pela primeira vez por trabalhar como médica voluntária da UFB. Essa prisão durou apenas algumas horas. No entanto, um mês depois, Nise foi presa novamente e levada para o DOPS, sendo transferida para o Presídio Frei Caneca, onde permaneceu até junho de 1937. O mais curioso da prisão de Nise é que ela foi acusada de “pertencer a um círculo de ideias incompatíveis com a democracia” (MELLO, 2014, p. 75).
Uma enfermeira do hospital [da Praia Vermelha] denunciou Nise ao diretor, acusando-a de ter em seu quarto “literatura comunista” em meio a livros de psiquiatria. (…) Enquanto Nise ficou presa, ela permaneceu na famosa Sala Quatro, o cárcere das presas políticas. (MELLO, 2014, p. 13)
Depois que me transferiram para a famosa Sala Quatro onde estavam, entre outras, Olga Prestes, grávida, e Elisa Berger (…). Elisa era fantástica! O marido, Harry Berger, também estava preso e sofreu até enlouquecer. Eles torturavam Berger de uma maneira terrível. (…) Ouvir aquilo tudo me atingiu muito. (…) a prisão foi uma experiência decisiva para a minha vida. (SILEVEIRA apud MELLO, 2014, p. 76)
Na prisão, Nise conheceu também o escritor Graciliano Ramos, que descreveu o encontro dos dois no livro Memórias do Cárcere: “noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos” (RAMOS apud MELLO, 2014, p. 77).
Mais de um ano depois, já em liberdade, Nise soube que Luiza, uma paciente com quem conversava muito e que costumava fazer café para as duas, derrubou a enfermeira delatora com um soco. Luiza era considerada “completamente embotada afetivamente e desligada da realidade” e, no entanto, agia com um extraordinário – e violento – senso de justiça. Esse episódio voltou à cabeça de Nise nos oito anos de afastamento do serviço público: o louco extrapolava o livro e os diagnósticos que pareciam querer aprisioná-lo tanto quanto o tratamento. A experiência do cárcere trouxe não só um possível paralelo entre a prisão e o hospício como também mostrou a Nise que a criatividade e o afeto têm potencial de cura. Era nas leituras e nas longas conversas com os companheiros de prisão que ela se sentia livre.
Um encontro possível: Nise e Wollstonecraft
Nise da Silveira nasceu em 1905, em Maceió. Com apenas 16 anos, foi aprovada no exame para a Faculdade de Medicina da Bahia. Era a única mulher numa turma de 157 homens.
Houve um episódio que mostra bem o preconceito (…) em relação ao fato de Nise, uma mulher, estar “ousando” estudar medicina… Numa das primeiras aulas, o professor de parasitologia, Pirajá da Silva, falou que ia ser criado um serpentário na faculdade. Em seguida, entrou na sala seu assistente com uma serpente dentro de um vidro. O professor pinçou-a e pediu que Nise segurasse o animal diante da turma. Ela imediatamente estendeu os braços e segurou o animal. Ela comentava comigo que neste instante percebeu nos olhos do professor a representação do mal, mas que se manteve firme. (MELLO, 2014, p. 52)
Mais de um século após a publicação de Reivindicação dos direitos da mulher, Nise via erguerem-se em tono de si muros semelhantes aos que separavam Mary Wollstonecraft de conquistar a cidadania plena. A conquista dos direitos pelas mulheres nunca é permanente. É necessário um estado de constante vigilância diante dos possíveis retrocessos. Nise não foi enviada à guilhotina, como aconteceu com Olympe de Gouges, mas teve que estremecer o muro tão sólido quanto invisível da falsa razão.
Empregam a razão para justificar preconceitos, assimilados quase sem saber como, em vez de desarraigá-los. Prevalece uma espécie de covardia intelectual que faz com que muitos homens recuem diante da tarefa ou simplesmente façam pela metade. No entanto, as conclusões imperfeitas a que chegam são, com muita frequência, muito plausíveis, porque se constroem a partir de uma experiência parcial e de pontos de vista justificados, ainda que estreitos. (WOLLSTONECRAFT, 2016, p. 32)
A luta de Nise contra “a incompreensão dos psiquiatras e a violência dos tratamentos” (MELLO, 2014, p. 20) parece ter se apoiado nas palavras de Wollstonecraft. Um dos maiores símbolos dessa luta – e das terríveis perdas que Nise enfrentou pelo caminho – foi a lobotomia de um de seus pacientes.
Lúcio frequentava o Serviço de Terapêutica Ocupacional, fundada por Nise em 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional. Esculpia guerreiros que, segundo ele, o protegeriam na sua “luta cósmica contra as forças do mal” e chegou a participar de uma exposição do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Ele foi lobotomizado na mesma época da exposição, apesar de todas as investidas de Nise contra a tal cirurgia. “Vão decapitar um artista”, ela dizia. Nise publicou na revista Medicina, Cirurgia Farmácia de janeiro de 1955 a produção plástica de Lúcio antes e depois da operação. Seus trabalhos se tornaram irreconhecíveis, regredindo à mais primária condição. Esse exemplo de destruição da criatividade e da inteligência de um ser humano foi denunciado por Nise de diversas maneiras: em livros, palestras e no Primeiro Congresso Mundial de Psiquiatria, em Paris. (MELLO, 2014, p.20)
A lobotomia, hoje considerada um dos episódios mais bárbaros da história da psiquiatria, rendeu um Nobel a Egas Moniz. Fato que poderia ser confrontado com as seguintes palavras de Wollstonecraft: “até a verdade se perde em um emaranhado de palavras, a virtude se perde nas formas e o conhecimento se transforma em um sonoro nada por causa dos preconceitos enganadores que assumem seu nome”.
A atualidade do pensamento de Nise e Mary nos lembra de que, mesmo os direitos já conquistados, não são permanentes. Seja para a Luta Antimanicomial, recentemente ameaçada pela nomeação de Valencius Wurch para a Coordenação Nacional de Saúde Mental; seja para o feminismo, que sofre duros ataques do atual Congresso.
Para evitar essas sucessivas “decapitações” e “reconstruções de velhos muros”, é necessário transformar o “não” das mulheres que vieram antes de nós em força coletiva. Nas palavras de Wollstonecraft: “trabalhar reformando a si mesma para reformar o mundo”.

Bibliografia:
MELLO, Luiz Carlos. Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Automática, 2014.
SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2015.
WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos Direitos da Mulher. São Paulo: Boitempo, 2015.